SPFW apresenta desfile com peças feitas por detentos sob orientação de Gustavo Silvestre

SPFW Gustavo Silvestre Penitenciaria

Um projeto realmente transformador. Assim é o Ponto Firme, iniciativa do designer Gustavo Silvestre, que leva formação técnica artesã em crochê para sentenciados de uma penitenciária masculina.

No último dia 4.04, Gustavo organizou uma prévia do desfile na Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, em que modelos desfilavam peças criadas pelos detentos. “O tempo dedicado às aulas contribui para a ressocializacão e remissão de pena dos participantes, além de ajudar no desenvolvimento da concentração por meio de uma terapia manual”, conta Gustavo. No final, o tempo em grupo vai muito além do aprendizado de uma técnica. Eles também sentem a realização ao ver algo que fizeram com as próprias mãos tomar forma.

A apresentação que emocionou todos os presidiários que assistiram, poderá ser vista no SPFW, no sábado (21.04), às 15h, no Pavilhão das Culturas Brasileiras como evento oficial da agenda do São Paulo Fashion Week. “O SPFW tem como premissa transformação, educação e formação. Ter esse projeto dentro do evento reafirma nosso compromisso com a sociedade de mostrar que a moda, o design, o fazer criativo podem realmente mudar a vida das pessoas”, ressalta Paulo Borges, diretor criativo do SPFW.

Nós conversamos com Gustavo, que contou os desdobramentos do Ponto Firme e como o crochê mudou sua vida.

Gustavo Silvestre (de camisa azul) com os os novos artesãos / Danilo Sorrino

Como foi a recepção do desfile na penitenciária?

Emocionante. A equipe inteira chorou, os detentos, diretores, maquiadores, modelos. A gente lida com muitas forças lá dentro… Imagina, um desfile de crochê numa penitenciária masculina, uma coleção inteira feita por detentos homens. Foi uma comoçao ver o desfile acontecer.

O que te levou a criar o Ponto Firme? 

Como você sabe, eu trabalhava com moda, fazia Casa de Criadores… Daí em 2009 fui pra China porque tinha uns empresários interessados em investir na minha marca. Como estava difícil produzir no Brasil me falaram: vai lá na China ver se você consegue produzir suas roupas lá. Detestei tudo o que vi – muita fábrica, condições péssimas de trabalho -, voltei super em crise e comecei a me questionar. Parei de desfilar e fiquei perdido. Poxa, eu tinha aprendido tanta coisa, o que faria com esse conhecimento? Fiquei nessa crise por um tempo até que comecei a ver iniciativas de moda sustentável e passei a fazer alguns projetos sociais com a Chiara Gadaleta que envolviam artesanato. Chamava Mãos do Meu Brasil. Circulamos o país inteiro e foi uma saída pra mim. Vi que não precisava abandonar a moda, apenas encontrar um novo lugar nesse mercado.

Mas foi quando aprendi crochê que minha vida realmente mudou. Fui fazer uma aula na Novelaria e essa aula mudou tudo pra mim, me deu uma autosuficiência: eu mesmo pensava, desenhava, fazia, não precisava de ninguém. E isso foi muito bom, ocupou o meu tempo e comecei a desenvolver peças a partir daí.

E como você conseguiu implementar um curso de crochês lá dentro?

Um dia, a Lica da Novelaria falou que o pessoal de uma pastoral perguntou se tinha uma professora pra ensinar os detentos numa penintenciária e queria saber se eu tinha interesse. Eu aceitei na hora. Meu pensamento foi: o crochê ocupou todo o meu tempo na minha vida e o que os caras mais tem lá dentro é tempo. Se foi bom pra mim pra ocupar o tempo, porque não levar isso pra eles…

Foto: Danilo

Como funciona a oficina?

Vou duas vezes por semana, dou três aulas de aula cada vez. Já fizemos exposição, já participamos da campanha do agasalho do Governo do Estado e agora o desfile. Os diretores foram gostando da ideia e quando vimos a coisa tomou uma proporção grande. Quando falamos com Paulo Borges, ele abraçou nossa ideia de cara e abriu as portas pra receber o nosso desfile no SPFW.

Quais os maiores desafios que você encontrou?

O primeiro com que me deparei foi o preconceito: homem fazendo crochê. O segundo: criminosos – as pessoas usam muito essa palavra. “É perigoso você entrar lá”, me diziam. Ao chegar lá, a primeira pergunta que fiz foi: quem da família tem alguém que faz crochê? 99% da sala de aula levantou a mão. Fui por esse caminho do afeto.

A partir da memória afetiva e do fazer coletivo, a  oficina também descontrói preconceitos por parte dos dois lados. O projeto Ponto Firme conta com o apoio da Linhas Círculo, Melissa e Novelaria.

 

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